Dora Alexandra Coelho Alerta para todo os utilizadores de lentes de contacto - a minha história

Resolvi contar a minha história pelo facto de continuar a não haver informação suficiente sobre os perigos do uso/manuseamento de lentes de contacto.

No início de Dezembro de 2016 tive a nítida sensação de ter um grão de areia na pálpebra superior do meu olho esquerdo. Como sou utilizadora de lentes de contacto desde a adolescência, e era frequente sentir uma ligeira impressão ou uma comichão de longe em longe, admito que não dei grande importância… Julguei inclusive que fosse mais um quisto, pois já havia tido pequenos quistos nas pálpebras superiores no passado, ou quiçá um terçolho… Pesquisei na internet e pela sintomatologia, tudo indicava que fosse um terçolho ou um quisto.

Ignorei o tal “grão de areia” até que uma semana depois comecei a sentir fotofobia, ou seja, parecia que os faróis de todos os automóveis vinham com os máximos ligados e qualquer tipo de luz forte incomodava-me.

Resolvi dirigir-me às Urgências do HPA nas Gambelas, e ao que tudo indicava tinha uma ceratite herpética na córnea, ou seja um herpes dentro da córnea devido ao uso de lentes de contacto. Iniciei de imediato o único tratamento possível, tendo o médico alertado desde logo para o facto do tratamento para a ceratite herpética ser moroso, com a agravante de que iria deixar uma cicatriz que numa fase posterior poderia ser corrigida com um transplante de córnea. Como não estava a reagir nada bem a esse tratamento e a perder cada vez mais visão, o Dr. Eduardo Lares, um médico absolutamente extraordinário mas que infelizmente não podia fazer mais nada por mim aqui no Algarve, pegou no telefone e ligou directamente para a UOC – Unidade de Oftalmologia de Coimbra para a equipe do prestigiado Prof.º Dr.º Murta, em virtude de tratar-se de um caso muito específico na córnea – Idealmed 

Aí fui imediatamente encaminhada para o Dr. João Pedro Marques, que fez todos os exames possíveis na altura, tirou fotografias da córnea, e explicou que as ceratites são uma inflamação da córnea que pode ser provocada por uma lesão ou infecção originadas por vírus, bactérias, fungos ou parasitas, onde os sinais e sintomas mais frequentes são a dor nos olhos que pode ir de moderada a forte, a fotofobia (sensibilidade à luz), a vermelhidão e o ardor nos olhos, a visão turva, entre outros. Uma vez que eu não apresentava dores, tinha reagido mal à medicação da ceratite herpética, e pelo que se conseguia observar na altura, tudo indiciava que tinha uma ceratite bacteriana. E contrariamente àquilo que eu achava, pois apenas via uma névoa branca opaca, ou seja pensava que tinha perdido a visão pois não via quaisquer cores ou formas, o Dr. João Pedro mais uma vez acalmou-me e após fazer o teste à visão disse: – “Está a ver, ainda só perdeu 40% da visão, esse opacidade é a inflamação, por isso não se preocupe que quando a córnea desinflamar vai ver que começará logo a ver muito melhor.” Após prescrever a nova medicação o Dr. João Pedro Marques fez algo que nunca me passaria pela cabeça: – “Está aqui o meu número, ligue-me ou mande-me mensagem, pois eu quero ir acompanhando esse olho à distância. Você agora vai regressar para o Algarve, mas eu quero que me vá pondo a par da sua reacção a este novo tratamento.” Como devem calcular saí da UOC absolutamente boquiaberta com a atitude deste médico fantástico.

Iniciei então a nova medicação e como o olho começou desde logo a reagir menos bem a algumas gotas, o Dr. João Pedro Marques reajustou toda a medicação, à distância, via dezenas e dezenas de SMS’s e iMessages, e quando eu passava um dia sem dizer-lhe como estava a sentir-me, porque não queria ser chata e importuná-lo a toda a hora, este jovem médico tomava a iniciativa, e ele próprio enviava uma SMS: – “Então? Como está esse olho?”

E este tipo de cuidado e atitude, não há dinheiro que pague, é muito raro, e a verdade é que nem consigo descrever por palavras tudo, mas mesmo TUDO o que este médico fez e continua a fazer por mim.

Durante o mês de Janeiro o tratamento que já incluía cortisona parecia estar a resultar, pois recuperei grande parte da visão do olho esquerdo, já conseguia ler letras pequeninas e as legendas na TV, conseguia conduzir, trabalhar, e até consegui deslocar-me a trabalho a Viena, porém sempre que o Dr. João Pedro pedia-me para iniciar o “desmame” da cortisona a visão voltava a ficar mais turva, pese embora continuasse sempre sem dores, e aquilo que me incomodava mesmo era única e tão somente a fotofobia. 

Dia 27 de Janeiro a fotofobia começou a agravar e comecei a sentir algumas dores, pelo que no dia 30 lá fomos de malas e bagagens para Coimbra, pois pela descrição dos meus sintomas, o Dr. João Pedro já suspeitava que ou podia ter desenvolvido uma sobreinfecção daquilo que já tinha, uma úlcera ou a ceratite mais rara e mais difícil de todas, a da parasita acanthamoeba…

Dia 31 é efectivamente comprovado através de uma biopsia o pior dos cenários, a ceratite por acanthamoeba, e assim no dia 1 de Fevereiro iniciei o primeiro ciclo de 6 meses de uma bomba química de medicamentos, aquilo que eu chamei de “quimio”, de forma a tentar salvar o meu olho e exterminar de vez a parasita que esteve camuflada na minha córnea.

E como contraí esta ceratite? Com algo tão simples quanto isto: a minha lente de contacto do olho esquerdo caiu, e como na altura não tinha o líquido desinfectante comigo nem o meu par de óculos, passei a lente de contacto por água da torneira, e voltei a colocá-la. Sim tão simples e inocente quanto isto…

Resolvi contar a minha história para alertar os utilizadores de lentes de contacto sobre os riscos da má higienização das mesmas.

Eu era bastante cuidadosa, pois quando as utilizava desinfectava-as todas as noites com o líquido adequado, e a bem da verdade já quase só usava lentes quando tinha alguma reunião importante, algum evento, ou para sair à noite ou ir à praia por uma questão de estética (detesto ver-me de óculos pois tenho lentes muito grossas).

Passados exatamente 6 meses, a colocar gotas de hora a hora, e acreditem que eu cumpri e coloquei cada gota à hora certa, consegui aniquilar a acanthamoeba logo no 1.° ciclo. Tinham-me informado que no mínimo teria de fazer aquele tratamento durante 1 ano.

Tive muita sorte em não perder o meu olho, este órgão tão precioso, mas foi sem dúvida a minha coragem, a minha disciplina e a minha determinação que fizeram com que fosse bem sucedida. Há muitas pessoas que acabam por perder os seus olhos e nem toda a gente consegue obter um resultado positivo em tão pouco tempo quanto eu.

Passei por dias e noites incrivelmente difíceis, pois nunca na minha vida havia sentido dores tão fortes quanto estas. E sei bem o que são dores fortes pois quem sabe um pouco da minha história sabe que tive um acidente de viação onde parti as duas pernas, passei por uma cesariana muito complicada e fui ainda submetida a duas cirurgias ao nariz igualmente difíceis. Nenhuma dor se compara às dores que senti enquanto o parasita esteve alojado na minha córnea. Apenas consigo descrever a sensação de ter duas facas espetadas desde o meu cérebro até ao meu olho (uma espetada na vertical e outra espetada na horizontal). Houve noites em que desejei perder o meu olho, pois na altura perder o olho parecia-me mais suportável a continuar com aquelas dores excruciantes.

Quando terminei o tratamento a minha íris tinha uma névoa opaca branca. Perdi a visão por completo, apenas conseguia ver uma nuvem branca (por sorte o parasita não alcançou a retina senão teria ficado completamente cega). Todavia a única forma de voltar a recuperar alguma visão, e do meu olho voltar a ter uma aparência minimamente normal, era unicamente através de um transplante de córnea. Foi aí que o Dr. João Pedro Marques passou o testemunho ao Prof. Dr. Murta e à Prof. Dra. Maria João Quadrado, dois profissionais absolutamente fantásticos que em Agosto de 2017 devolveram-me a visão e a cor castanha do meu olho com um transplante de córnea (eternamente grata ao jovem dador italiano que morreu para que eu pudesse voltar a ver).
O transplante foi bem sucedido e ao longo de vários meses fui recuperando paulatinamente a minha visão.

A minha luta está longe de estar terminada. Continuo a ter de ir a consultas a Coimbra retirar pontos, ajustar medicação e há pouco tempo foi-me diagnosticada uma catarata fruto da utilização da cortisona em gotas. Um revez frequente após um transplante de córnea devido à medicação que temos de aplicar diariamente para não rejeitarmos o transplante.

Agora aguardo que a opacidade da catarata me retire novamente a visão para removê-la, uma vez que esse procedimento implica retirar todos os pontos, agravando o risco de rejeição da “nova” córnea.

A acanthamoeba é um parasita microscópico geralmente encontrado na água da torneira, piscinas, banheiras de hidromassagem, etc. e é um dos responsáveis pela contaminação frequente através das lentes de contacto. Se é utilizador de lentes de contacto nunca esqueça de levar sempre um par de óculos e um frasco de líquido desinfectante consigo. Não utilize lentes de contato em piscinas, jacuzzis, banheiras de hidromassagem ou saunas. Não coloque as lentes enquanto tiver os dedos molhados com água da torneira. Não vá à praia ou tome banho com as lentes colocadas. Seja minucioso na desinfeção e manutenção das suas lentes de contacto. Não coloque em risco um dos seus sentidos mais preciosos, a sua visão!
Dora Alexandra Coelho